M77 - A minha Guerra
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2016-07-22
2015-06-07
M73 - As cartas do ultimato
Luquembo, 1974
Luquembo, 1974
A Casa das Palancas (ver M48) está em grande
Com as limitações inerentes deste micro-cosmo, cumpre a quota parte da animação “cultural” local.
As noites correm e improvisa-se no instante; ontem foi conversa com os mais velhos da sanzala, hoje é noite de farra, bar aberto, amanhã se verá o que chega primeiro; nada que perturbe a capacidade de estabelecer planos de contingência, um dos atributos maiores do militar que se preza
E as tardes? Tenho de reconhecer que tenho vindo a aproveitar mais as oportunidades para me isolar e relaxar a seguir à primeira refeição do dia. Um grupo arbóreo de copa densa, protege a casa nas horas em que os raios solares são mais agressivos. A abertura simultânea das duas janelas, propicia uma serena corrente de ar, que mor das vezes ameniza o ambiente.
O que acima alinhei, estaria na página do diário que imagino perdida, mas que de facto nunca foi escrito.
Tantos anos decorridos a memória continua a ser companheira fiável, e bastante para o que se quer relevar.
Bons e especiais momentos, designadamente os partilhados com as jovens indígenas, generosas nos seus verdes anos, como eram também os nossos; algumas de espírito livre e coração aberto, em conversas de palavras simples invariavelmente plenas de sotaque africano, que podiam também ser de conforto ou ao invés, em conversas temperamentais e devassas
Muitas vezes ocorreu-me um verso de Neruda, se bem que o poeta o tivesse moldado noutro contexto ... "Terra de semente inculta e bravia".
A mais vivaça, com alguma ajuda, conseguia replicar com os dois versos seguintes:
"Terra onde não há esteiros ou caminho
Sob o Sol minha vida se alonga e estremece"
Frequentemente insistia em dizer que não compreendia os versos que pronunciava, mas adivinhava-se-lhe no olhar que gostava de pisar terreno de Eros; com sorriso insinuante repetia o "minha vida se alonga e estremece"
Idiossincrasias à parte, hoje a questão primeira é outra: prosaica e singular.
Há dias, em mais uma tentativa de introduzir ordem nos meus arquivos mais esconsos, encontrei um documento a que tinha perdido o rasto. Trata-se de uma carta, que considero que testemunha o mérito e a capacidade de conseguir ser diferente, de duas das nossas amigas locais, de presença mais assidua. Por uma questão de princípio os nomes dos distintos alferes a que é (são) dirigida(s) e os das autoras que deram forma aos ultimatos, foram suprimidos.
Releio as cartas, e como tantas vezes ouço de um primo meu que foi nosso companheiros da jornada africana, também sou capaz de confessar: "que saudades".
Leiam também s.f.f.
Com as limitações inerentes deste micro-cosmo, cumpre a quota parte da animação “cultural” local.
As noites correm e improvisa-se no instante; ontem foi conversa com os mais velhos da sanzala, hoje é noite de farra, bar aberto, amanhã se verá o que chega primeiro; nada que perturbe a capacidade de estabelecer planos de contingência, um dos atributos maiores do militar que se preza
E as tardes? Tenho de reconhecer que tenho vindo a aproveitar mais as oportunidades para me isolar e relaxar a seguir à primeira refeição do dia. Um grupo arbóreo de copa densa, protege a casa nas horas em que os raios solares são mais agressivos. A abertura simultânea das duas janelas, propicia uma serena corrente de ar, que mor das vezes ameniza o ambiente.
O que acima alinhei, estaria na página do diário que imagino perdida, mas que de facto nunca foi escrito.
Tantos anos decorridos a memória continua a ser companheira fiável, e bastante para o que se quer relevar.
Bons e especiais momentos, designadamente os partilhados com as jovens indígenas, generosas nos seus verdes anos, como eram também os nossos; algumas de espírito livre e coração aberto, em conversas de palavras simples invariavelmente plenas de sotaque africano, que podiam também ser de conforto ou ao invés, em conversas temperamentais e devassas
Muitas vezes ocorreu-me um verso de Neruda, se bem que o poeta o tivesse moldado noutro contexto ... "Terra de semente inculta e bravia".
A mais vivaça, com alguma ajuda, conseguia replicar com os dois versos seguintes:
"Terra onde não há esteiros ou caminho
Sob o Sol minha vida se alonga e estremece"
Frequentemente insistia em dizer que não compreendia os versos que pronunciava, mas adivinhava-se-lhe no olhar que gostava de pisar terreno de Eros; com sorriso insinuante repetia o "minha vida se alonga e estremece"
Idiossincrasias à parte, hoje a questão primeira é outra: prosaica e singular.
Há dias, em mais uma tentativa de introduzir ordem nos meus arquivos mais esconsos, encontrei um documento a que tinha perdido o rasto. Trata-se de uma carta, que considero que testemunha o mérito e a capacidade de conseguir ser diferente, de duas das nossas amigas locais, de presença mais assidua. Por uma questão de princípio os nomes dos distintos alferes a que é (são) dirigida(s) e os das autoras que deram forma aos ultimatos, foram suprimidos.
Releio as cartas, e como tantas vezes ouço de um primo meu que foi nosso companheiros da jornada africana, também sou capaz de confessar: "que saudades".
Leiam também s.f.f.
Azevedo
2015-04-22
2015-03-26
No livro chamado Maravilhas do Mundo (ed. 1933), R Halliburton escreveu que “... a Grande Muralha (GM) é a única obra do homem que pode ser vista do espaço”
Em 1972, o astronauta G. Cernan, após regressar da missão Apolo
17 confirmou que quando em órbita, a 320 kms da Terra, tinha divisado a GM.
Em 2003 o astronauta chinês Yang Liwei, que deu 10 voltas à Terra
na Shenzhou 5 disse que apesar de se ter esforçado não tinha avistado a muralha.
Desfez-se o mito; ainda que o observador esteja em voo orbital o mais baixo admissível,
não há construção humana, que seja de facto visível a olho nu.
Cerca de um anos depois, ou seja em 2004, a Keyhole
(curiosamente uma empresa criada pela CIA), vendeu à Google um programa chamado
EarthViewer 3D.
Bem hajam pelo acordo de negócio; hoje, dispomos de um
software magnifico … o –google Earth
Tinha-me há tempos ocorrido que observar do espaço os outros
espaços terrenos africanos em que estivemos confinados durante 27 meses,
poderia constituir motivo para alguma reflexão ou comentário que no presente
estimulasse memósria antigas que todos
mais ou menos partilhamos.
Por isso, accionei o Google Earth e marquei o destino: Lucusse
É um espanto este programa, já estou de saída do voo orbital
virtual e mergulho no interior de Angola.
O rigor da navegação facilita a captação de registos da
imagem do solo.
No que, o primeiro temos o Lucusse quase centrado e três
vias (em tom amarelo) radiais; para a esquerda alta, segue para o Luso, a da direita
alta, para o Lunhamege e para sul a que dá acesso ao Lungué-Bungo.
No segundo registo, a partir de uma posição a menor
altitude, são ainda perfeitamente identificáveis as vias radiais acima referidas.
Recorri a uma ferramenta do Google Earth que permite delimitar
uma qualquer zona do solo; no caso parece-me que estão correctamente identificados
o campo de futebol (pelado) e o espaço que terá sido ocupado pelas instalações
militares.
Se a memória não me falha, próximo do canto NW do
aquartelamento, situava-se uma passagem de peão que dava acesso ao campo da
Tecnil.
A partir do ponto em que estaria esta passagem de peão, foi
marcada no registo de observação seguinte, uma linha sinuosa com que procuro
representar um eventual trilho de pé posto. Na extremidade desta linha está
penso, perfeitamente identificavel a obra (elefante branco) do Mj. ASS.
A mui célebre piscina do Lucusse (para melhor observação clicar na imagem)
Um dia em que a obra já ia algo avançada, deu um ar de graça
ao tentar sugerir que … nem sei!...
Talvez sugerir que lhe estava escrito no destino, uma vez
que invocou uma frase de Pessoa: “Deus quer, o homem imagina, a obra nasce”.
Fiquei siderado.
É sabido que esta obra megalómana – uma vez concluída dava
para albergar em simultâneo todo o pessoal da CCS – começou por ser uma
proposta de voluntariado e poucos dias decorridos passou a trabalho por escala.
Teve um gast
o enorme de cimento que poderia, caso tivesse
optado por uma geometria mais modesta, ter sido utilizado em melhoramento das
instalações militares ou do bem estar dos residentes na sanzala.
Uma vez carregada com água, revelaram-se fugas várias; nunca
chegaram a ficsr totalmente controladas.
Procurei nos meus arquivos uma fotografia que desse ideia da
dimensão da dita piscina, mas só encontrei uma em que o campo estará reduzido a
talvez 1/6 do que era a realidade.
Mas, tem um mérito, e por isso vai aqui ficar; testemunha uma
das primeiras lições de natação que ali tiveram lugar.
Compenetrado o (à data) Furriel MO (de t-shirt preta), observa e tenta executar em seco a técnica natatória, demonstrada pelo esforçado instrutor.
Azevedo
2015-03-24
O filme MASH
(acrónimo de Mobile Army Surgical Hospital), de R. Altman foi estreado em
Portugal nos finais de 1974. Quando regressei da ZMAngola, em finais de
Setembro deste ano, agarrei a oportunidade de rever o que me tinha ficado
registado de forma indelével do filme que tivera oportunidade de visionar fora
de portas em 71; rever as interpretações do naipe de bons actores: dos
impagáveis Duke, Hawkeye e Trapper, do desconcertante Radar e da sedutora
Hot-Lips.
Um primor de
anti-militarismo, em que sobre cenários da guerra da Coreia, se criticava a
guerra de Vietname; uma sátira, mas também uma mensagem tão poderosa quanto a
que ainda iria descobrir, algum tempo depois, no primeiro visionamento do filme
de Sidney Lumet, A Colina Maldita (the Hill).
As mensagens
de MASH, iriam ter uma quota parte de influência na minha travessia dos anos
72-74.
Desde muito
cedo constatei que um dos quadros do BArt reunia um conjunto de características
negativas que amiúde me obrigava a compara-las com estereótipos da obra
inspiradora de Richard Hooke.
E, a breve
trecho, foi só juntar letras e saiu: ASS
Há dias
passei minutos de sorriso alargado com recordações esparsas de algumas das
situações em que esteve envolvido e que tive oportunidade de observar.
Participei numa das mais, sui generis; e recordo o exercicio de controlo que foi manter cara-de-pau, onde o cenário era mais para o hilariante
Participei numa das mais, sui generis; e recordo o exercicio de controlo que foi manter cara-de-pau, onde o cenário era mais para o hilariante
Passo então
à descrição dos antecedentes e da conclusão.
Estávamos
ainda no Lucusse; era uma tarde de ócio quente, como muitas outras em que o
pensamento perseguia tudo e nada. À falta de melhor, pareceu-me que era chegada
a altura de ensaiar uma velha brincadeira a que dava o título de molha-gatos; a
diversão ia consistir em colocar no bordo superior da porta de acesso às
instalações sanitárias dos oficiais subalternos, uma muito partilhada bacia de
plástico encarnada, carregada com 4 a 5 litros de água.
Decorria
daqui que o primeiro apressado e/ou desatento que quebrasse o equilíbrio
instável do sistema, levava com a carga líquida e logo de seguida com o
recipiente.
E, foram vários os que se envolveram na experiência como vítimas e diversas as exclamações, no mais puro vernáculo, que foram proferidas a horas e desoras
Não tardou que o conhecimento e as consequências da "armadilha" se tornassem conhecidas, como agora se diz, transversalmente.
E, foram vários os que se envolveram na experiência como vítimas e diversas as exclamações, no mais puro vernáculo, que foram proferidas a horas e desoras
Não tardou que o conhecimento e as consequências da "armadilha" se tornassem conhecidas, como agora se diz, transversalmente.
E também
"verticalmente", como se demonstra no episódio da armadilha accionada
pelo, à data, Mj ASS
Num belo fim
de tarde, em que tinha a "armadilha" montada, e estava à conversa no
que era pomposamente designado por bar de oficiais, entra o Mj ASS, que, poucos
minutos decorridos, se aproxima e sussurra que tem algo a dizer-me, porém
sujeito a confidencialidade. Deixo a cavaqueira e sigo-o até ao local para onde
se tinha encaminhado: o pequeno hall de entrada do JC, onde se iniciava o
corredor de acesso aos quartos dos subalternos, e ainda estava a porta que abria para as
instalações sanitárias.
Aí começa com uma conversa frouxa, sem nexo e a dar-me pequenos toques nos ombros. Constato que ele está a deslocar-se circularmente, obrigando-me a rodar para o enfrentar. Estranho o comportamento e, como o hall era mesmo pequeno, olho por cima do ombro para avaliar o espaço de manobra que tenho, sem correr o risco de ficar molhado.
Nesse preciso momento, percepciono um movimento abrupto de ataque, de que me esquivo rápido; o Mj. ASS, entra em desiquilíbrio, e de braços projectados para a frente, prossegue em direcção à porta "armadilhada".
Aí começa com uma conversa frouxa, sem nexo e a dar-me pequenos toques nos ombros. Constato que ele está a deslocar-se circularmente, obrigando-me a rodar para o enfrentar. Estranho o comportamento e, como o hall era mesmo pequeno, olho por cima do ombro para avaliar o espaço de manobra que tenho, sem correr o risco de ficar molhado.
Nesse preciso momento, percepciono um movimento abrupto de ataque, de que me esquivo rápido; o Mj. ASS, entra em desiquilíbrio, e de braços projectados para a frente, prossegue em direcção à porta "armadilhada".
A água cai
implacável e quase em simultâneo a bacia. Consigo escapar apenas com uma manga
da camisa meia molhada; ele apanhou bem mais. Porém há uma nota extemporânea,
um grito, não de desconforto, mas de dor aguda.
Recomponho-me
e vejo-o com o corpo ligeiramente dobrado, aos saltinhos, ombros comprimidos, a
mão esquerda no sovaco da direita, de esgares múltiplos no rosto ... e com a
ladainha ai, ai, ui, ui …
Havia razão
para tal; nos instantes subsequente à entrada em fase de desiquilíbrio,
tinha de passagem, conseguido enfiar a extremidade do dedo mínimo da mão
esquerda, no espaço entre o quadro da porta e o bordo desta.
Só me
restava uma opção, a de o responsabilizar pelo ataque e afirmar que nunca
esperaria que ele estivesse ali para me empurrar.
E o Mj. ASS
acedeu
No fim,
ainda teve sorte por a falangeta não ter sido castigada para além do limite
elástico; ficou-se por uma luxação simples se bem que, como se aceitará, muito
dolorosa
Nos dias que se seguiram vi-o por diversas vezes a tentar a avaliar o nível de recuperação da luxação.
Nos dias que se seguiram vi-o por diversas vezes a tentar a avaliar o nível de recuperação da luxação.
Nunca senti
remorsos; só me ocorria uma algo anarca e profunda reflexão: "ninguém te
mandou meter o dedo no cu da galinha".
Azevedo
2014-02-28
M65 - Chanel nº 5
Num belo fim de tarde, no Luquembo, deambulava pelo quimbo em geito de
encontrar um motivo e gente boa para uma conversa.
Por peculiar sortilégio, tinha o pensamento focado na memória de
Alberto Jales, cujo óbito ocorrera cerca de um ano antes (Out71) e via-me, na
passada, a organizar,e trautear trocadilhos baseados em títulos de versos por ele escritos e cantados de forma soberba pela
Amália: “Foi Deus” e “Vou dar de beber à dor”.
E nas voltas que o mundo dá suspendi a injúria e fixei-me na terra que
pisava e na direcção tomada; era o arruamento estreito, tantas vezes percorrido
e que me levava a passar em frente à casa pequena, de adobe cuidado, porta e
janela minúsculas e cobertura zincada, o que a destacava das demais
E perpassam adjectivos, numa sequência de quase delírio … boémia, bizarra,
fadista, … mas que aos poucos se instalam e ajudam a acordar o que recordava da
letra de um outro fado da Amália:
A Júlia Florista boémia e fadista/ … figura bizarra/ … vendia flores, mas
os seus amores jamais os vendeu/ … chinela no pé um ar de ralé, um geito de
andar …
Era um facto, a deambular, vinha em busca do remanso da Júlia.
A Júlia era rapariga de corpo jovem e escorrido, senhora de uma inteligência
prática notável, com resposta rápida, algumas vezes bregeira e que não
embarcava em qualquer inutilidade.
Gostava de conversar com ela, palavras que iam ganhando o sabor da
Nocal e navegavam em nuvens de fumo de cigarros ou de quando em vez do mutopa
partilhado.
Com os meses que levava a comissão e a frequência das deslocações à sanzala,
o sistema olfactivo já estava um pouco embotado.
Mas naquele fim de tarde ao entrar na casa da Júlia, havia algo de
inusitado de que o inconsciente deu conta, mas que tardei a identificar.
Fitava-a e ela ria baixinho, quase envergonhada; só decorridos alguns
segundos, associei que tal decorria do meu duplo “snifar”. A partir daqui foi
fácil descobrir
Eis a estória:
Há cerca de dois meses, o Alf G., de partida para umas férias na
Metrópole, tinha prometido à Júlia que lhe ia trazer de prenda um colar, coisa
que ele sabia ia bem com a vaidade da rapariga.
Vinha já no avião, de regresso, quando se apercebeu que ia estar em
falta ao prometido, e nas circunstâncias emendou para uma compra duty-free, no
caso um frasquinho de perfume
Na hora de chegada justificou-se como pode, e ofereceu o Chanel nº5,
cuja fragância eu, uns dias depois, estava a ter oportunidade de rever; diga-se,
uma fragância resplandecente sobre o corpo chocolate, impoluto de suores, com
que fazia questão de surgir, garbosa, em cada fim de tarde.
Precisavas de sair da água
Precisavas de sair da água
Pura como uma gota erguida
Por uma onda nocturna
Azevedo
2014-02-24
M64 - Viatura minada
Numa deslocação da C.Art 3540, na ZMLeste aconteceu o que
era provável.
A viatura era conduzida pelo Cabo Mecânico Flor Ferreira e
estava confiada ao Soldado Condutor Gaspar Maia; ao primeiro a explosão da mina
provocou uma perda de audição temporária e o segundo ficou tristíssimo quando soube da
inoperacionalidade da Berliet onde me tinha pedido que desenhasse o seu nome.
Visivel no meio dos destroços, um fragmento do pneu; jante e
cubo da roda voaram cerca de 40 metros
Ao centro o Alf Abrantes, que seria ferido numa emboscada da
Unita, já depois do 25Abril74, por uma bala de raspão.
63 - Mulheres
Andam esquecidas, as mulheres que nos viram
partir, e ainda aquelas de que não quisemos ou conseguimos despedir-nos.
Às mulheres que se despediam no cais de Âlcantara e ficavam a acenar com lenços, até que o navio ultrapassava a linha do horizonte, chegaram a chamar-lhes carpideiras profissionais a soldo, e nós deixamos.
Perdemo-nos no tempo sedados pela adrenalina de pisar terrenos que nos podiam ser desfavoráveis ou de um jogo de cartas a dinheiro, ou ainda compartilhando com camaradas o sabor acre de uma cerveja; e tempo de saudades escritas sobre “bate estradas”, quantas vezes tocados por lágrimas furtivas.
Mas elas, terminados os afazeres da lide diária, algumas os filhos deitados, davam-se então conta de estar sozinhas e viviam o pior dos medos, o que se recria pela imaginação.
No regresso, estranhamos os cabelos brancos…
Às mulheres que se despediam no cais de Âlcantara e ficavam a acenar com lenços, até que o navio ultrapassava a linha do horizonte, chegaram a chamar-lhes carpideiras profissionais a soldo, e nós deixamos.
Perdemo-nos no tempo sedados pela adrenalina de pisar terrenos que nos podiam ser desfavoráveis ou de um jogo de cartas a dinheiro, ou ainda compartilhando com camaradas o sabor acre de uma cerveja; e tempo de saudades escritas sobre “bate estradas”, quantas vezes tocados por lágrimas furtivas.
Mas elas, terminados os afazeres da lide diária, algumas os filhos deitados, davam-se então conta de estar sozinhas e viviam o pior dos medos, o que se recria pela imaginação.
No regresso, estranhamos os cabelos brancos…
2013-12-05
M60 - Adeus até ao meu regresso
Um dos icones da guerra colonial, é feito
de palavras: “adeus até ao meu regresso”.
Mantem-se no imaginário dos expedicionários
que o verbalizaram ou sonharam poder fazê-lo, bem como dos familiares, das noivas
e dos amigos que, por entre dificuldades várias, ansiaram por ouvi-lo, quer pelas
ondas da rádio (na altura a EN), quer, com o acrescento da imagem do falante, nas
emissões da então RTP; … afinal de toda uma geração.
O epifenómeno nasceu com a gravação das
mensagens natalícia e de fim de ano, reservadas ao corpo expedicionário. As que
se destinavam a serem emitidas no que, à época, era o canal único de TV, exigiam recursos técnicos com
alguma sofisticaçãp; porém, quase sempre ficaram aquém dos objectivos, devido à
manifesa incapacidade ou intenção, de produção de cenários naturais verosimeis;
os actores principais embora empenhados, reflectiam problemas diversos da
sociedade de que o vira nascer, designadamente a fraca escolaridade (cerca de
25% dos soldados não tinham na altura a 4ª classe), a dificuldade de
sociabilidade, e um natural pouco à vontade para enfrentar procedimentos técnicos que eram
pouco usuais ou de um cronometro omnipresene
Apesar de tudo, o “adeus até ao meu
regresso” acabou por se tornar um assunto
abrangente; ou ainda se quisermos ir mas longe, susceptivel de se considerar
como a singular, para não dizer a única frase “patriótica” que os mobilizados
proferiam; foi também a mais transmitida nas acções de propaganda, que
pretendia mostrar que os soldados estavam bem e se recomendavam.
Mas, cesse o julgamento porque "melhor experimentá-lo que julgá-lo", como escreveu o vate.
Não foi o caso tê-lo experimentado, mas andei lá perto depois de ter combinado uma colaboração em part time na gravação das mensagens de Natal da CCS.
Não foi o caso tê-lo experimentado, mas andei lá perto depois de ter combinado uma colaboração em part time na gravação das mensagens de Natal da CCS.
E em que circunstâncias!
Estavamos ainda no sexto mês de
comissão, que era também o penúltiplo de 1972. Numa conversa, que se poderia
designar de programação informal de actividades-de-que-passe-o-tempo, ficaram
definidas duas intervenções:
Primeira, a de programar e levar à
cena uma festa de natal
Segunda, a de, conforme acima refiro, gravar
mensagens natalicias de pessoal da contingentação da CCS, isto é do, como é
sabido, recrutamento angolano, que como era uso e costume , era incorporado
para completar os efectivoso das unidades metropolitnas.
É de elementar justiça, relevar que o
grande dinamizador destas actividades, foi o furriel M. Para além de pessoa com
singulares conhecimentos técnicos de electromecanica, que não se escusava compartilhar,
conseguia brilhar em capacidade criativa onde acontecia a escassez de meios e não
menos importante, era senhor de uma boa disposicão contagiante.
Portanto, o homem certo para liderar
os dois projectos em carteira e como se verá, torná-las um acontecimento.
As gravações, foram a primeira acção a
ser agendada.
Tratando-se apenas de registo de voz,
bastavam um gravador e um microfone; acessoriamente era necessário disposição e
talento para sortear os contemplados, disponibilidade para ajudar onde
necessário, na estruturação da mensagem, no treino de dicção, ou na gravação da
mesma e anotar identificação do falante, bem como os contactos dos que se
esperava viessem a escuta-la.
Na data-hora aprazados, avancei para o
lugar combinado, que era a secção de radiomontadores, Já a aguardar, estavam o
furriel M, o cabo C e mais dois ou três pandegos, habituais nas nossas práticas
noturnas; mais tarde chegaram os alferes A. e M.. No exterior continuava a
aguardar o grupo dos principais interessados na gravação (que no que se segue serão
designaos de mensageiros), grupo constituido por pessoal de cor; era manifesta
uma capacidade de desenrascanço e um espirito de iniciativa suficiente que
levavam a acreditar que, quase todos, já estivessem de posse de um papel com a relação
das pessoas a que vão dedicar a mensagem e o teor da mesma.
Nós, tinhamos feito o trabalho de casa
e também estavamos ansiosos por começar.
Eu o furriel M. e o cabo C.
sentamo-nos e um lado da mesa, e no oposto ficou uma cadeira vazia a aguardar por cada um dos mensageiro.
O furriel M. verifica as ligações do
equipamento, que se encontrava na extrema da mesa próxima do lugar que ocupava e
deslocou uma caixa de cartão para ficar em frente, talvez ligeiramente à
direita do eixo da cadeira vazia.
Pessoa menos avisada dirá que esta
caixa em tempos, seviu para acondicionar um par de sapatos e agora,
considerando a tarefa que está em curso e o facto de sob a tampa emegir um cabo
que termina no gravador master, albergará um microfone.
Obtido o OK, o cabo C, levanta-se,
entreabre a porta e chama o primeiro mensageiro da lista. Ele entra e sauda,
após o que lhe sugerido que se ocupe a cadeira vazia. Sentado, no rosto um
sorriso curto e o olhar de uma criança assustada que enfrenta pela primeir vez
um juri de exame, o que inesperadament me traz, da memória profunda, registos
da minha 4ª classe; mãos apoiadas e pouco contidas, volteiam o papel em eu
escreveu a mensagem que espera gravar. Esforçamo-nos por criar um clima de descontração,
dizendo-lhe que estamos na época natalicia e que dadas as circunstâncias queremos,
ou esperamos para todos, uma noite bem passada. Seguem-se duas ou três
perguntas, indagando sobre as pessoas a quem ele dedica a mensagem, nome das
namoradas, e coisas assim. O sorriso fica mais solto, e amigável.
Atingimos o nivel de decontração
suficiente para testar o que quer gravar … comoça a ler …faz-se um ou outro
trocadilho com o que vai dizendo … quando conclui, ouve-se um “muito bem!”, ao
que alguém do lado acrescenta um “vai um golinho de Nocal?” (não se oferece uma
garrafa, porque de facto as disponiveis não chegam para todos) …
Parece que está tudo a correr conforme
previsto e necessário a um bom momento de descontração.
Passa-se então à segunda fase, a de
informação sobre o procedimento de gravação
Aqui, no esboço de guião que tinhamos
feito, relevava-se a necessidade de informar sobre a rotina de gravação e
garantir que, no início desta, a atenção do mensageiro estivesse focada no
papel em que tinha escrito a mensagem; para o efeito, havia que ser algo
incisivo no enunciar das instruçõeso, rápido no acessório, mais lento e
enfático no fundamental
Tendo em consideração estes
pressupostos, a mensagem final, teria de ser, algo imperativa, qualquer coisa como (e cito de memória): “rapaz, tens aqui o gravador onde as
palavras vão ficar registadas, o microfone está nesta caixa, para estar
protegido do barulho que estamos a fazer, … as palavras são as que estão neste
papel que colocas aqui à tua frente e que já sabes ler na perfeição… a caixa do
microfone está aqui à direita, coloca a
mão junto da tampa da caixa … ao meu sinal, silêncio total, … retiramos a tampa da caixa, … sem desviares o olhar do papel, sacas o
microfone e começas a ler … o microfone sempre bem junto da boca … olha ali (estava
o cabo C. exemplifica com um microfone alternativo)… compreendido??? … vou
repetir …”
Acenou com a cabeça, quase sem
descolar o olhar do papel, o que é bom.
Sem mais delongas dá-se uma ordem
final: “atenção, ao contar “três”, tens de, sem tirar o olhar do papel, pegar
no microfone, e começas a ler! … silêncio! … um, dois e TRÊS!”
Acto continuo o furriel M. acciona o
gravador e com a outra mão entreabre a caixa de cartão, para facilitar o acesso
ao micro.
E … o soldado, como bom soldado, cumpre conforme
ordenado, retira o artefacto da caixa de cartão, aproxima-o da boca e começa a
debitar a mensagem, … mas hélas! interrompe com exclamação súbita, a que se
segue uma grande e genuina gargalhada; ainda estou a ouvir: “aqui fala o
soldado F … c’um C*****HO!!!…”.
Risadas desbragadas, que se tentam
controlar para não colocar de sobreaviso os que estão no exterio, mas não é
fácil.
Depois far-se-á silêncio para gravar a
sério. E a mensagem que em situação normal seria grave com laivos de solenidade,
a reflectir as infinitas saudades que
cada um sentia, evidencia agora uma
quota de optimismo e de partilha e adivinham-se-lhe, a intervalos, sorrisos
contidos.
Veio depois outro mensageiro e mais
outro e de cada vez o mesmo resultado fina de boa disposição, e de plena
aceitaçao e participação no guião que tinhamos criado.
Creio que todos, os que foram
seleccionados para gravar a mensagem, tiveram oportunidade de sentir o que
afinal era uma oferta de abertura de relacionamento, que teve reflexos
positivos nos tempos que se seguiram.
Na parte que me toca, não foram poucas
as vezes e os dias em que alguns dos mensageiros, depois, me visitaram na
oficina, onde habitualmente parava, para saudar, dois dedos de conversa e em geito de memórias boas, perguntar:
“Alfero, hoje não há gravações?”
Azevedo
Azevedo
2013-09-29
M57 - A
sabotar a operação?!...
Tinha
recebido o aviso para me dirigir, com carácter de urgência, à que conheciamos
como a sala de operações.
Dou por mim a esconjurar demónios, enquanto em passada preguiçosa, atravessava o
lanço de parada em que o Sol castigava mais; escasseavam-me ideias relativamente
ao que ia.
Tinham-me dito, que de uma das companhias agregadas ao BArt caiam
mensagens Z, que reportavam niveis elevados de inoperacionalidades
das viaturas, que poderiam, no limite, inviabilizar uma operação, que se
desenrolaria a partir do dia seguinte. Dava a informação como fiável, tanto mais
que, nessa manhã, tinha tido um contacto via rádio com o pessoal do STM Auto dessa
companhia, que tentava obter material (peças de motor e outras), que escasseava
por lá.
Chegado, aguardavam-me, o oficial de
operações e o segundo comandante do BArt, ambos de ar grave afivelado
Não tardou que começasse a perceber que me encontrava em mais uma
cerimoniosa e militar tentativa de sacanear (para não dizer f….) alguém.
Gastas as introduções, foi-me exigido que declarasse, sob
compromisso de honra, que cumpriria a missão que me ia ser confiada.
Naquela fase da comissão, já valia tudo, A loucura tinha deixado de ser o oposto à razão ou a sua ausência; como diria Hegel, a loucura de cada um, a considerada dentro do sujeito, possuia uma lógica própria.
A minha era uma mera questão de sobrevivência, tinha de majorar a dos outros.
Mentiria então se negasse que, por instantes, vivi no delirio imagético de me terem destinado uma missão gloriosa, acometido de plenos poderes que permitiriam enfrentar e vencer o duunvirato que, de quando em quando eu dizia gozando, governava aquela aldeia gaulesa (no caso a companhia infractora).
Naquela fase da comissão, já valia tudo, A loucura tinha deixado de ser o oposto à razão ou a sua ausência; como diria Hegel, a loucura de cada um, a considerada dentro do sujeito, possuia uma lógica própria.
A minha era uma mera questão de sobrevivência, tinha de majorar a dos outros.
Mentiria então se negasse que, por instantes, vivi no delirio imagético de me terem destinado uma missão gloriosa, acometido de plenos poderes que permitiriam enfrentar e vencer o duunvirato que, de quando em quando eu dizia gozando, governava aquela aldeia gaulesa (no caso a companhia infractora).
Desci à terra, quando por entre as nuvens ouvi “juras por
tua honra?”
Só?!
Respondi: “…juro”
Respondi: “…juro”
Ainda estava arrepiado com o eco
da pronuncia, quando entra o sargento L. e em palavras mais breves que as que
comigo tinham sido gastas, lhe é exigida a mesma promissão.
Em segundos, recapitulei os
capitulos do filme em que estava: surpreso, louco, ajuramentado e … esclarecido
Tinha-me sido ordenada uma
avaliação da operacionalidade das viaturas de uma unidade; embora não a
tivessem invocado, era por demais evidente, que pairava a suspeita de que
alguém estaria a sabotar o esforço de guerra, e eu era o miliciano escalado
para o denunciar, queriam-me no papel do grande buffoon ... e cereja no
topo do pastel, tinha sido nomeado o policia de serviço que, como convinha era
sargento de carreira
Contrariando o que era boa norma,
a coluna em que nos deslocamos, saiu cerca da meia noite.
À chegada ao local do crime -
madrugada já avançada - aguardava-nos o Alf S, a quem de imediato, pedi que
combinasse uma reunião urgente e sigilosa com o Capitão L.. Em menos e 10
minutos, estavamos a falar do que interessava; reportei o filme das últimas
horas, passadas na CCS, qual era a minha perspectiva do que estava a acontecer
e ao que estava obrigado
“Grandes f.da p…!”- exclamou o
capitão.
Para conter o extase, acrescentei
que considerava de grande responsabilidade a missão, mas que estava demasiado
cansado, que não esgotado, para iniciar vistoria dos carros, pelo que seria
preferivel repousar cerca de uma hora ou mais, para depois, recuperado,
levar a tarefa toda de seguida.
De facto, o Cap L. também já me
tinha confirmado que, de acordo com o último ponto da situação que lhe tinham
feito, não existia impedimento a que a início da operação oorresse na data-hora
prevista.
Uma vez que o primeiro quesito do
ordenante timha perdido significado, fomos falar com o Sargento L. que
confirmou que também preferia deixar o resto das questões para depois de um
curto periodo de descanso…
Certo é que a breve trecho cada
um recolheu a aposentos.
Na parte que me toca, só acordei
quando começaram a roncar os motores das viaturas da coluna em ordem de
saida.para a operação. Vestido que estava, levantei-me de um lanço e dirigi-me
ao exterior. O Cap L. afinal não se tinha deitado, teimando em assistir aos
últimos preparativos da coluna, e agora, na partida desejava boa jornada a
todos.
Ficamos à conversa; a breve
trecho chegaram também os Alf L. e S, e a conversa, para variar, resvalou para
os dislates do costume.
Não tinha ainda decorrido uma
hora, quando chegou a primeira mensagem com informação de um alto da coluna,
devido à viatura na frente da coluna ter accionado uma mina
Não havia feridos, mas era
necessário recolher a Berliet.
Trabalho não ia faltar e
ocorreu-me que era a oportunidade de ouro para verificar a operacionalidade do
triângulo de reboque que tinhamos em fase de acabamento na oficina da CCS.
Já tinham sido realizados alguns testes, mas aqui, no duro do terreno, seria
diferente.
Enviou-se uma msg para o comando
do batalhão, com o ponto de situação no local, e o pedido de acordo para: a)
suspender a peritagem, b) avançar para zona da deflagração da mina e c) iniciar
a preparação do reboque da viatura, para o que nos deveria ser enviado o
triângulo de reboque que estava na oficina da CCS
Recebida a luz verde, arrancamos
de imediato
Já tinha visto viaturas minadas,
mas agora, pela primeira vez e no local era bem diferente: a frente da Berliet do
lado esquerdo, pousada no chão, desfeita, ferro cortado e retorcidos, dando uma
sugestão da imensidão e caminho da onda de explosão; ali um resto de pneu suspenso
de uma jante partida, caida apenas a meia dúzia de metros, só porque o voo
tinha sido interrompido pelo tronco de uma árvore, onde era visivel o ponto de
impacto, a cerca de 4 metros do solo. Ainda sob a caixa da viatura, alinhado
com um dos rodados, era visivel um buraco na picada, com menos de um metro de
profundidade, o que permitia concluir tratar-se de uma mina A/C singela, isto
é, que não tinha sido reforçada com outros explosivos.
Confirmei com o graduado do grupo
que garantia a protecção à viatura, que já tinha sido verificada a não
existência de sinais de minas A/P nas proximidades; fiquei agradado, mas mesmo
assim comprometi-me a ser contido nas passadas.
Restava aguardar e aproveitar
para fazer o desvaste de árvores e arbustos, tendo em vista facilitar a manobra
da Berliet que iria fazer o reboque, bem como a manobra de inversão de marcha… e
continuar a aguardar
Felizmente que a Berliet da CCS, já
vinha com o triângulo de reboque instalado e com os cabos passados, o que
abreviou o inicio do levantamento
Estivemos à beira do insucesso
quando ao começar a erguer a Berliet sinistrada, os tubos que convergem na
roldana superior, começaram desalinhar, evidenciando sub-dimensionamento das
estruturas de reforço que tinham sido aplicadas. A salvação, o plano
"b" estava no triângulo interior, que evidenciava estar bem ancorado
(soldado) e estabilizado; cortou-se um tronco de árvore, com diâmetro
máximo admissível e comprimento suficiente para passar no interior deste
triângulo e apoiar na caixa da Berliet, impedindo assim que a deformaçao dos
tubos laterais progredisse.
Como pai desta solução de recurso
e por via das dúvidas, assumi a condução desta Berliet-reboque e só viajaram na
caixa os que também quiseram assumir riscos extra.
Duas horas depois a Berliet
sinistrada estava a ser depositada no P.A.D. de Gago Coutinho.
Dias depois de regressados à CCS,
os tubos deformados foram substituidos e reforçados em toda extensão com
cantoneira de aço de abas iguais 5/16 x 3” (ver em M30
– Vamos buscá-las, deste blog).
Azevedo
Azevedo
2013-09-24
M56 - Somos menos
Séneca afirmou que “toda a vida devemos aprender a morrer”
Porque a morte é um passo biológico natural e certo … mas também
humanamente dolorosa
Porém, quando se morre e se deixa saudades, é de
felicitar quem foi e quem fica, significando tal que a pessoa foi querida e
útil.
Por circunstâncias várias o meu relacionamento com o Teixeira
ficou limitado praticamente, aos idos de 72 a 74.
Mas não esquecemos, não ignoramos os laços de companheirismo
que permanecem no tempo e permitem que cada encontro com os camaradas, comece
como se a última vez que nos tivéssemos visto, ocorresse na véspera.
É certo que a Natureza por vezes é algo cruel, nesses
encontros dificultando por formas diversas o reconhecimento, ora alterando a
acuidade visual, ora estragando a imagem para além do que julgávamos admissível,
mas o que por aí na gíria se designa de coração, mantem viva a memória desses tempos, em que os rapazes se fizeram homens e
as amizades se definiram caldeadas por perigos, contrariedades e loucuras.
Ainda em Junho último, tive oportunidade de falar com
o que, creio bem, foi o Amigo mais próximo do Teixeira nesse percurso.
Terá querido o acaso que ambos tivessem percorrido o
calvário da formação de Operações Especiais, em Lamego e dai saíram guerreiros
O Teixeira fazia as honras ao crachá, era garboso com
uns laivos de natural vaidade.
Singela é a minha memória mais sedimentada, que
consagra este camarada, e que agora evoco.
Um dia eu vi estes guerreiros, entusiasmados como
putos que estivessem a trocar cromos; putos esquecidos das horas, homens
esquecidos das vicissitudes da guerra e despicientes da lei última da vida, a verbalizarem,
exclusivamente no tempo que viria depois do termo da comissão, como cada um iria ter o que naquele cu de
judas eles consideravam o melhor compromisso de automóvel competitivo, um Simca
Rally2.
Cumpriram a esperança. Um dia de passagem por Águeda
tive oportunidade de os encontrar numa roda de camaradas; e quase de saída, o
privilégio de fazer uma curta viagem no carro do Teixeira. O palco, foi um
troço da actual IC2 (direcção sul norte), no tempo um pouco antes da entrada na
curva grande que antecede o desvio para Aguada de Cima, e a deixa: “vamos fazer a próxima a 140” ... um must de
elegância e controlo de condução…
Apenas, sem mais…
A todos os que partilham saudades do Teixeira, o meu
abraço de solidariedade.
Azevedo
Azevedo
2013-09-04
M52 - Soldado A.M.V.
Conheci o soldado V. em
circunstâncias peculiares. Numa tarde solarenta de Mai72, calhou
deslocar-me ao quartel de Gaia (ex-RAP2) e à passagem em frente à casa da
guarda, o sargento informou-me que tinha sido presente e estava ali detido, um
militar que seguiria para Angola, integrado numa das companhias operacionais do
Batalhão.
A pedido, foi-me facultado
o aceso ao aposento em que se encontrava o prisioneiro. Deparou-se-me um
homem magro, olhar escavado num rosto de pedra, marcado como só a vida noturna
e desregrada consegue. Permanece sentado na borda do catre, o que não me
preocupa já que se me figura que se se levantasse me ganhava em altura, para
além do que o espaço é acanhado; responde à saudação de forma distante e volta
a afivelar um olhar duro e desconfiado de animal acossado. Recuo um pouco, na
direcção de uma pequena mesa, em que vou apoiar-me e ensaio um diálogo com
perguntas de circunstância: se está bem, se tem dormido, se precisa de alguma
coisa. Vai respondendo … de quando em quando deixava pairar uma réstea de
confidência, uma verdade escondida ou sofrida. Concluo que o V. tinha
pertencido a uma espécie de quadrilha que operava na zona do grande
Porto. Cometeu ilícitos vários que motivaram a perseguição e a detenção pela
PSP. Presente a tribunal para julgamento e detectado a situação de desertor,
passa para a alçada da policia militar e acaba ainda castigado com pena
acessória de embarque para zona operacional, na R.M.A.
Tinha decorrido quase uma hora;
saí com uma despedida singela, de um até breve.
Mas, muita água passou sob as pontes do Lungué Bungo antes de voltamos a cruzar caminhos
O V. estava integrado na 3540, e
nas duas primeiras vezes que por lá passei não deu para o rever. Homem
habituado a uma vida dita de marginal, com manifesta capacidade de liderança,
não se adaptou ao regime disciplinar que lhe era imposto.
Não surprendeu os que conheciam
alguns dos antecedentes do V. que, a breve trecho, estivesse envolvido em
conflitos graves.
E também rapidamente foi
transferido para a C.C.S.
Não me cabe escalpelizar motivos
e justificações subjacentes, até porque não domino essa informação.
Certo é que para os padrões da
CCS, o V., passou a ser o super operacional. Andava mais tempo com a G3, que
sem ela; e garantiam que com bala na câmara. Também eram mais os dias (e
noites) que passava no mato, que aqueles em que era visto no quartel. Isto com
o beneplácito do capitão AA, que não era pessoa para confrontos directos;
neste particular, funcionava o laissez
faire, laissez passer.
O código ético a que muitas das
acções do V. se subordinavam, se bem que rudimentar, não deixava de ser
interessante. E, quando o respeitavam, ele retribuia em igual; e por esses
mesmos, quando considerava necessário, assumia a defesa incondicional.
Recordo dois episódios
Decorria uma madrugada algo
agitada, com o ultimar de uma coluna que ia lançar um bigrupo de catangueses,
para os lados do Lunhamege. O Sol ainda tardava. Tinha acabado de limpar os
vidros dos faróis e começava a acomodar-me ao volante da Berliet que seguiria
na frente. Vejo com alguma surpresa surgir o Cap. AA que me vem dizer
que V. estava autorizado para mais uma caçada e seguia no meu carro … e lá
vem ele. com a G3 na esquerda, e o cinturão regulamentar de través pelo
peso dos carregadores; sauda e sobe para a caixa.
Coluna a rolar, faltavam cerca de
6 quilómetros para se atingir a segunda ponte (uma das referências na ordem de
marcha), quando o pressinto atrás do meu banco e ouço a pedir confirmação de eu
estar informado de que ele ia à caça; acrescenta que tencionava iniciar a
batida a partir dali.
Não expresso qualquer reserva e
começo a explicar-lhe que não devo estar de regresso, antes que decorridos
1h30m. Ele deveria estar atento aos dois sinais sonoros que por essa ocasião
emitiria, com intervalos de 15 minutos, para estar próximo e se apresentar à
boleia: o primeiro à chegada e o segundo ao retomar a marcha para o
quartel.
De facto a passagem de regresso
aconteceu quase duas horas depois, e verificou-se o que era expectado: o V. não
estava nem apareceu no termo dos quinze minutos subsequentes, que tinha
estabelecido como limite; assim, motores a trabalhar, e retomamos os trilhos na
areia.
Três noites decorridas, seriam
cerca das 06h00m, estou de conversa junto à porta de armas, com a sentinela e o
sargento da guarda, quando o primeiro alerta para a aproximação de
desconhecido; pouco segundos decorridos é unânime opinião de que vem lá o
V.. Parece mais magro que o habitual, traz no rosto noites naturalmente
mal dormidas. Chega, saúda e leva a mão ao cinto de onde retira uma
das quatro galinhas do mato pendentes, que me oferece.
Não posso aceitar e afavelmente
afirmo-lhe não apreciar carne por ser mais dura e o animal abatido, merece
melhor destino, que era o da partilha com o pessoal da caserna; “amigos como
dantes”, diz, já de partida.
O segundo episódio que recordo
ocorreu no início do almoço, no refeitório dos praças, no
Lucusse, porventura no último dia que aconteceu ali estar de oficial de
dia.
O arroz não saiu a preceito e o
pessoal começou num crescente de protesto contra a qualidade da refeição e a
incompetência dos cozinheiros. Súbito o T. (soldado condutor) porventura convencido de que lhe cabia ser o bobo
de serviço e introduzir mais dinâmica na
reclamação, levanta-se, pega numa travessa e com um movimento amplo,
arremessa o conteúdo em direcção ao teto. O ruído
diminuiu significativamente, os mais próximos estão admirados, ora olhando para
o teto, onde continua colado o arroz, ora fitando-me.
Não posso facilitar, entre
despoletar a aplicação das regras disciplinares, o que não me agrada muito e
devolvê-lo à posição de sentado com um valente cachaço, opto pela segunda; vai
ser de esquerda cheia, começo a avançar, quando vejo o V. levantar-se e
dirige num vozeirão ao T: “parece que queres ir lamber o arroz lá para cima…” .
Silêncio sepulcral no refeitório. O T. senta-se, reduzido a nada; passo
pelo V. e toco-lhe no ombro, também para o motivar a sentar-se; dois passos
depois, fito-o por cima do ombro e dirijo-lhe um impercetivel aceno com a
cabeça. Pareceu-me ter sorrido.
Azevedo
2013-07-23
M48 - Casa das Palancas
Despertei para a cultura
africana com a leitura de algumas obras de Henrique Galvão(1), militar que esteve destacado em
Angola (cerca de 1925), o que lhe possibilitou o contacto com várias tribos e o
posterior e preciso relato, das suas práticas.
Por um golpe do destino, diriam, tive oportunidade de
percorrer algumas destas terras e de observar as suas gentes. Recuo no tempo (Jun72) … encontro-me a bordo
do Boeing dos TAM que transporta CCS e a pagar pela forte variação de pressão,
provocada por uma brutal descida em direcção ao aeroporto de Luanda..
Corro a cortina, olho
pela janela e tenho a fraca sensação de que a terra sobe, como se fora uma nuvem
de terra e pó vermelho sangue.
Esta visão da terra
avermelhada de Angola iria acompanhar-nos, em cada dia, dos vinte e sete meses
seguintes. Prevalece desde a partida de Luanda, para lá das janelas dos autocarros que nos levaram a Nova
Lisboa, ou depois, das do comboio em que ensandecemos, a caminho do Luso; para a última etapa, dessa longa
travessia de Angola, estava-nos
reservada a indignidade da caixa de carga de viaturas pesadas civis, a
rolar embrulhadas numa nuvem calda e extensa de pó oxidado, de onde só saimos para sermos martelados pelo Sol e no final descarregados
no aquartelamento, em Lucusse.
Nos dias seguintes,
cansados e exasperados, começamos a tomar consciência do isolamento e
iniquidade a que estavamos remetidos;
Dos dois aldeamentos
confinantes, quando o vento estava de feição vinha o cheiro da miséria e do chão,
dessa terra vermelha, que breve se constataria, também sobe pelas palhotas.
As rotinas a que todos
se entregaram, ajudaram a ultrapassar a fase de resignação do luto de distância,
que precisavamos ultrapassar. Estavamos todos num mesmo barco, encalhado em mar
chão, onde aos poucos as recordações se esboroavam e muitas das ditas
referências de normalidade se afundavam.
Porém, porque eramos
jovens e as caracteristicas do nosso teatro de operações o facilitavam, começamos
a perceber este território de que nos apoderavamos, essa natureza em bruto, em
que qualquer dos referenciais de espaço e de tempo, possuiam dimensões a que não estavamos
habituados.
E adaptavamo-nos, se bem
que, quase sempre, subjugados por um calor viscoso e obrigados a reagir ao
avanço subterraneo de um mal estar vagaroso e corrosivo.
Aos poucos cada um foi
fazendo o percurso que lhe saia em sorte.
O pessoal do meu sub-agrupamento
(mecânicos e condutores), cumpria.
Confiei na capacidade de
discernimento de todos, para levar a bom termos as tarefas que lhe cabiam, sem
ultrapassar limites temporais e de qualidade admissiveis e apreciei o clima de
respeito pelas idiossincrasias de cada um e do grupo, que rapidamente se
estabeleceu.
A casa quase arrumada,
permiti-me avançar na perseguição de objectivos pessoais, que começaram por ser,
evoluir como artífice de mecânica auto e melhorar a técnica de condução de
veículos pesados.
O tempo ia passando.
Luso, a vila mais
próxima, distava cerca de 130 km. Só decorridos quatro meses após o
aquartelamento, calhou reve-la. Tal regresso implicou uma espécie de choque civilizacional:
saiamos de um universo fechado em que todos se conheciam e mergulhavamos num
outro em que não eramos reconhecidos e a cortesia do acolhimento escasseava ou em
que não era dispiciente a sensação de que estavamos a mais.
Aquela não era a minha
praia … pertencia já a outra guerra. Os
civis, a sociedade com que tinha de interagir, descobri-o eram os vizinhos no
Lucusse. Era naquele terreno que tinha de se sondar a agreste realidade, e confrontá-la
com o assimilado dos escritos lidos e relidos, anos antes.
Opção feita…
No dia seguinte iniciei caminhadas
irregulares de exploração, através dos aldeamentos
Com o tempo ganhei a confiança de alguns dos residentes, com que depois me ia de
quando em vez perdendo em conversas prolongadas.
E uma noite africana de
Lua baixa, fui levado, para assistir a parte de um cerimonial da circuncisão, a
festa de iniciação dos adolescentes africanos. Voltei dias depois para agradecer
e também, com algum pesar, despedir-me destas gentes; a rendição da unidade, ocorreria
dias depois.
Rumamos ao Luquembo, povoação
em que já existia uma pequena comunidade de brancos. Por opção mantive o anterior
modus operandis, de conversa com os
indigenas, que mais das vezes ora era um deixar falar, ora um sereno aguardar,entre
nuvens de fumo na tentativa de encontrar
ou comprender formas de estar e de pensar dos meus interlocutores .
Dois meses decorridos,
surgiu uma oportunidade singular: num fim de tarde cruzo-me com um já velho conhecido da sanzala, que me desafia
com a perspectiva de eu poder ficar com a casa que ele ia deixar vaga, por
motivo de ausência para Malange.
Não perdi a
oportunidade. Assim, com a passagem de mãos de 220 angolares ele assegurou o
fundo de maneio necessário para a deslocação, que afinal já dizia ser prolongada
a Luanda, e tornei‑me proprietário, do palacete
de adobe e colmo que ele edificara na sanzala.
A rentabilizaçãocdo
investimento, não foi dificil. Foram muitas a noites de animação e festa, com
participação do jet set local; mas
também em algumas outras, a farra foi substituida por horas de amena
cavaqueira, fumo e bar aberto.
Foi na preparação de uma
das primeiras destas reuniões, que teve lugar um evento que recordo como de excepcional.
Estava combinada uma conversa com 2 dos mwatas da sanzala. Tinha chegado muito
cedo porque queria concluir um desenho que iniciara na véspera, uma espécie de fresco,
destinado a “encher” uma das paredes interiores do palacete que, recentemente,
tinha pintado de branco.
Noite calda e quente, um
candeeiro a espalhar sombras, que ora oscilavam nas paredes, ora se perdiam
pela porta que permanecia aberta; chegados, os dois mwatas convidados saudaram
e, ao meu sinal, entraram e, sem
despegar olhar da pintura, sentaram-se nas duas cadeiras que teriam imaginado, lhes
estavam destinado.
Minutos depois, concluido
o trabalho e ainda com o pincel na mão
afastei-me para uma melhor visão do conjunto. Ao invés, os eméritos caçadores ergueram-se,
e ainda ligeiramente curvados, avançaram de rosto algo tenso e um agitar de
mãos que temi estragasse os traços.
Desenho repescado da memória
Eles mesmo, já me tinham
falado das palancas negras, que sabiam estavam confinadas a uma reserva
próxima, mas diziam, há muito, muito tempo que ninguém as avistava ou caçava.
Vivida a surpresa, ficou
patente quão grande era o espanto e genuino o contentamento destes dois velhos.
E para mim novo o
registo da reacção: os mwatas, eram sempre muito circunspectos, mantinham um grau de
compostura, que não lhes vira ser afectado por fumo álcool ou tema de conversa, por controversa que este fosse.
Mesmo que pusesse em
causa ideias ancestrais, sempre lhes observei serenidade e regular capacidade
de argumentação. Porém a tradição prevalecia em absoluto.
Por exemplo, quando se
abordava o ordenamento social de tarefas em função do género, eram irredutiveis:
os homens estariam destinados ao exercício de actividades ditas mais
importantes, como a caça, o parlapiau e a
cachaça, enquanto que as mulheres na proporção do poder ou da dita riqueza
daqueles, ao passarem a regime marital, ficavam responsáveis pelo cultivo das
lavras, e tratamento dos animais, parir e cuidar dos filhos.
Paradigmática esta historia
que me contaram e que é replicada no livro Terras do Feitiço.
Uma jovem pubera tinha
casado com homem bem mais velho e ambos passado a viver na sanzala deste.
Poucos meses decorridos a rapariga foi à água. Calhou que à mesma linha de água tinha acorrido um seu conhecido residente na sanzala que ela deixara para
trás. Perderam-se de conversa a dar as novidades. Quando a dado passo ela o
viu preparar tabaco para cachimbar no mutopa, disse-lhe que também lhe apetecia
uma pitada. Não perdeu tempo, este velho conhecido, em dizer que há dias andava fora da
sanzala, sem mulher e que também a ele lhe apetecia … o corpo da rapariga.
E sem grandes delongas trocaram os favores que desejavam, seguindo
depois cada um o seu caminho. Quando, dias depois, o velho soube o que se
passara, resolveu a coisa de forma expedita: tendo a rapariga confirmado a aventura foi ter com o "abusador" que também não desmentiu; sem rancor, reuniram os dois homens, para deliberar sobre uma das duas soluções que eram reconhecidas como válidas: a) ou o
velho desistia por completo da posse da rapariga, recebendo em troca o
equivalente ao total do alembamento, ou b) recebia apenas uma indemnização a
estipular, como homem lesado nos seus direitos e propriedade.
O velho considerou a sua
provecta idade, que pelo contrário a rapariga era novita, reflectiu e optou
pela indemnização, que fixou em duas cabras e duas cabaças de marufo; o “abusador”
aceitou o valor proposto, fazendo questão de ressalvar que era necessário
descontar o valor do tabaco que cedera à rapariga.
E amigos como dantes …
Por estas e outras
parecidas, o misisonário residente, simpático ansião holandês, de que não me
ocorre o nome, bem tentava anunciar a força dos sacramentos, o ideal de
casamento monogâmico e outros, mas parecia que o rebanho, neste particular,
aspirava mais aos ensinamentos do Corão.
(1) - Henrique
Galvão tem obra escrita sobre a vida nas colónias
africanas, a sua antropologia e zoologia, designadamente Outras Terras e Outras
Gentes, A Ronda de África , Antropófagos e Terras do Feitiço
Azevedo
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