2015-04-22
2015-03-26
No livro chamado Maravilhas do Mundo (ed. 1933), R Halliburton escreveu que “... a Grande Muralha (GM) é a única obra do homem que pode ser vista do espaço”
Em 1972, o astronauta G. Cernan, após regressar da missão Apolo
17 confirmou que quando em órbita, a 320 kms da Terra, tinha divisado a GM.
Em 2003 o astronauta chinês Yang Liwei, que deu 10 voltas à Terra
na Shenzhou 5 disse que apesar de se ter esforçado não tinha avistado a muralha.
Desfez-se o mito; ainda que o observador esteja em voo orbital o mais baixo admissível,
não há construção humana, que seja de facto visível a olho nu.
Cerca de um anos depois, ou seja em 2004, a Keyhole
(curiosamente uma empresa criada pela CIA), vendeu à Google um programa chamado
EarthViewer 3D.
Bem hajam pelo acordo de negócio; hoje, dispomos de um
software magnifico … o –google Earth
Tinha-me há tempos ocorrido que observar do espaço os outros
espaços terrenos africanos em que estivemos confinados durante 27 meses,
poderia constituir motivo para alguma reflexão ou comentário que no presente
estimulasse memósria antigas que todos
mais ou menos partilhamos.
Por isso, accionei o Google Earth e marquei o destino: Lucusse
É um espanto este programa, já estou de saída do voo orbital
virtual e mergulho no interior de Angola.
O rigor da navegação facilita a captação de registos da
imagem do solo.
No que, o primeiro temos o Lucusse quase centrado e três
vias (em tom amarelo) radiais; para a esquerda alta, segue para o Luso, a da direita
alta, para o Lunhamege e para sul a que dá acesso ao Lungué-Bungo.
No segundo registo, a partir de uma posição a menor
altitude, são ainda perfeitamente identificáveis as vias radiais acima referidas.
Recorri a uma ferramenta do Google Earth que permite delimitar
uma qualquer zona do solo; no caso parece-me que estão correctamente identificados
o campo de futebol (pelado) e o espaço que terá sido ocupado pelas instalações
militares.
Se a memória não me falha, próximo do canto NW do
aquartelamento, situava-se uma passagem de peão que dava acesso ao campo da
Tecnil.
A partir do ponto em que estaria esta passagem de peão, foi
marcada no registo de observação seguinte, uma linha sinuosa com que procuro
representar um eventual trilho de pé posto. Na extremidade desta linha está
penso, perfeitamente identificavel a obra (elefante branco) do Mj. ASS.
A mui célebre piscina do Lucusse (para melhor observação clicar na imagem)
Um dia em que a obra já ia algo avançada, deu um ar de graça
ao tentar sugerir que … nem sei!...
Talvez sugerir que lhe estava escrito no destino, uma vez
que invocou uma frase de Pessoa: “Deus quer, o homem imagina, a obra nasce”.
Fiquei siderado.
É sabido que esta obra megalómana – uma vez concluída dava
para albergar em simultâneo todo o pessoal da CCS – começou por ser uma
proposta de voluntariado e poucos dias decorridos passou a trabalho por escala.
Teve um gast
o enorme de cimento que poderia, caso tivesse
optado por uma geometria mais modesta, ter sido utilizado em melhoramento das
instalações militares ou do bem estar dos residentes na sanzala.
Uma vez carregada com água, revelaram-se fugas várias; nunca
chegaram a ficsr totalmente controladas.
Procurei nos meus arquivos uma fotografia que desse ideia da
dimensão da dita piscina, mas só encontrei uma em que o campo estará reduzido a
talvez 1/6 do que era a realidade.
Mas, tem um mérito, e por isso vai aqui ficar; testemunha uma
das primeiras lições de natação que ali tiveram lugar.
Compenetrado o (à data) Furriel MO (de t-shirt preta), observa e tenta executar em seco a técnica natatória, demonstrada pelo esforçado instrutor.
Azevedo
2015-03-24
O filme MASH
(acrónimo de Mobile Army Surgical Hospital), de R. Altman foi estreado em
Portugal nos finais de 1974. Quando regressei da ZMAngola, em finais de
Setembro deste ano, agarrei a oportunidade de rever o que me tinha ficado
registado de forma indelével do filme que tivera oportunidade de visionar fora
de portas em 71; rever as interpretações do naipe de bons actores: dos
impagáveis Duke, Hawkeye e Trapper, do desconcertante Radar e da sedutora
Hot-Lips.
Um primor de
anti-militarismo, em que sobre cenários da guerra da Coreia, se criticava a
guerra de Vietname; uma sátira, mas também uma mensagem tão poderosa quanto a
que ainda iria descobrir, algum tempo depois, no primeiro visionamento do filme
de Sidney Lumet, A Colina Maldita (the Hill).
As mensagens
de MASH, iriam ter uma quota parte de influência na minha travessia dos anos
72-74.
Desde muito
cedo constatei que um dos quadros do BArt reunia um conjunto de características
negativas que amiúde me obrigava a compara-las com estereótipos da obra
inspiradora de Richard Hooke.
E, a breve
trecho, foi só juntar letras e saiu: ASS
Há dias
passei minutos de sorriso alargado com recordações esparsas de algumas das
situações em que esteve envolvido e que tive oportunidade de observar.
Participei numa das mais, sui generis; e recordo o exercicio de controlo que foi manter cara-de-pau, onde o cenário era mais para o hilariante
Participei numa das mais, sui generis; e recordo o exercicio de controlo que foi manter cara-de-pau, onde o cenário era mais para o hilariante
Passo então
à descrição dos antecedentes e da conclusão.
Estávamos
ainda no Lucusse; era uma tarde de ócio quente, como muitas outras em que o
pensamento perseguia tudo e nada. À falta de melhor, pareceu-me que era chegada
a altura de ensaiar uma velha brincadeira a que dava o título de molha-gatos; a
diversão ia consistir em colocar no bordo superior da porta de acesso às
instalações sanitárias dos oficiais subalternos, uma muito partilhada bacia de
plástico encarnada, carregada com 4 a 5 litros de água.
Decorria
daqui que o primeiro apressado e/ou desatento que quebrasse o equilíbrio
instável do sistema, levava com a carga líquida e logo de seguida com o
recipiente.
E, foram vários os que se envolveram na experiência como vítimas e diversas as exclamações, no mais puro vernáculo, que foram proferidas a horas e desoras
Não tardou que o conhecimento e as consequências da "armadilha" se tornassem conhecidas, como agora se diz, transversalmente.
E, foram vários os que se envolveram na experiência como vítimas e diversas as exclamações, no mais puro vernáculo, que foram proferidas a horas e desoras
Não tardou que o conhecimento e as consequências da "armadilha" se tornassem conhecidas, como agora se diz, transversalmente.
E também
"verticalmente", como se demonstra no episódio da armadilha accionada
pelo, à data, Mj ASS
Num belo fim
de tarde, em que tinha a "armadilha" montada, e estava à conversa no
que era pomposamente designado por bar de oficiais, entra o Mj ASS, que, poucos
minutos decorridos, se aproxima e sussurra que tem algo a dizer-me, porém
sujeito a confidencialidade. Deixo a cavaqueira e sigo-o até ao local para onde
se tinha encaminhado: o pequeno hall de entrada do JC, onde se iniciava o
corredor de acesso aos quartos dos subalternos, e ainda estava a porta que abria para as
instalações sanitárias.
Aí começa com uma conversa frouxa, sem nexo e a dar-me pequenos toques nos ombros. Constato que ele está a deslocar-se circularmente, obrigando-me a rodar para o enfrentar. Estranho o comportamento e, como o hall era mesmo pequeno, olho por cima do ombro para avaliar o espaço de manobra que tenho, sem correr o risco de ficar molhado.
Nesse preciso momento, percepciono um movimento abrupto de ataque, de que me esquivo rápido; o Mj. ASS, entra em desiquilíbrio, e de braços projectados para a frente, prossegue em direcção à porta "armadilhada".
Aí começa com uma conversa frouxa, sem nexo e a dar-me pequenos toques nos ombros. Constato que ele está a deslocar-se circularmente, obrigando-me a rodar para o enfrentar. Estranho o comportamento e, como o hall era mesmo pequeno, olho por cima do ombro para avaliar o espaço de manobra que tenho, sem correr o risco de ficar molhado.
Nesse preciso momento, percepciono um movimento abrupto de ataque, de que me esquivo rápido; o Mj. ASS, entra em desiquilíbrio, e de braços projectados para a frente, prossegue em direcção à porta "armadilhada".
A água cai
implacável e quase em simultâneo a bacia. Consigo escapar apenas com uma manga
da camisa meia molhada; ele apanhou bem mais. Porém há uma nota extemporânea,
um grito, não de desconforto, mas de dor aguda.
Recomponho-me
e vejo-o com o corpo ligeiramente dobrado, aos saltinhos, ombros comprimidos, a
mão esquerda no sovaco da direita, de esgares múltiplos no rosto ... e com a
ladainha ai, ai, ui, ui …
Havia razão
para tal; nos instantes subsequente à entrada em fase de desiquilíbrio,
tinha de passagem, conseguido enfiar a extremidade do dedo mínimo da mão
esquerda, no espaço entre o quadro da porta e o bordo desta.
Só me
restava uma opção, a de o responsabilizar pelo ataque e afirmar que nunca
esperaria que ele estivesse ali para me empurrar.
E o Mj. ASS
acedeu
No fim,
ainda teve sorte por a falangeta não ter sido castigada para além do limite
elástico; ficou-se por uma luxação simples se bem que, como se aceitará, muito
dolorosa
Nos dias que se seguiram vi-o por diversas vezes a tentar a avaliar o nível de recuperação da luxação.
Nos dias que se seguiram vi-o por diversas vezes a tentar a avaliar o nível de recuperação da luxação.
Nunca senti
remorsos; só me ocorria uma algo anarca e profunda reflexão: "ninguém te
mandou meter o dedo no cu da galinha".
Azevedo
2014-06-12
M67 - C.Art.3539 Convívio 2014
Para aceder ao Menu e às notas relativas à aproximação ao local do encontro, clicar aqui
2014-04-20
2014-02-28
M65 - Chanel nº 5
Num belo fim de tarde, no Luquembo, deambulava pelo quimbo em geito de
encontrar um motivo e gente boa para uma conversa.
Por peculiar sortilégio, tinha o pensamento focado na memória de
Alberto Jales, cujo óbito ocorrera cerca de um ano antes (Out71) e via-me, na
passada, a organizar,e trautear trocadilhos baseados em títulos de versos por ele escritos e cantados de forma soberba pela
Amália: “Foi Deus” e “Vou dar de beber à dor”.
E nas voltas que o mundo dá suspendi a injúria e fixei-me na terra que
pisava e na direcção tomada; era o arruamento estreito, tantas vezes percorrido
e que me levava a passar em frente à casa pequena, de adobe cuidado, porta e
janela minúsculas e cobertura zincada, o que a destacava das demais
E perpassam adjectivos, numa sequência de quase delírio … boémia, bizarra,
fadista, … mas que aos poucos se instalam e ajudam a acordar o que recordava da
letra de um outro fado da Amália:
A Júlia Florista boémia e fadista/ … figura bizarra/ … vendia flores, mas
os seus amores jamais os vendeu/ … chinela no pé um ar de ralé, um geito de
andar …
Era um facto, a deambular, vinha em busca do remanso da Júlia.
A Júlia era rapariga de corpo jovem e escorrido, senhora de uma inteligência
prática notável, com resposta rápida, algumas vezes bregeira e que não
embarcava em qualquer inutilidade.
Gostava de conversar com ela, palavras que iam ganhando o sabor da
Nocal e navegavam em nuvens de fumo de cigarros ou de quando em vez do mutopa
partilhado.
Com os meses que levava a comissão e a frequência das deslocações à sanzala,
o sistema olfactivo já estava um pouco embotado.
Mas naquele fim de tarde ao entrar na casa da Júlia, havia algo de
inusitado de que o inconsciente deu conta, mas que tardei a identificar.
Fitava-a e ela ria baixinho, quase envergonhada; só decorridos alguns
segundos, associei que tal decorria do meu duplo “snifar”. A partir daqui foi
fácil descobrir
Eis a estória:
Há cerca de dois meses, o Alf G., de partida para umas férias na
Metrópole, tinha prometido à Júlia que lhe ia trazer de prenda um colar, coisa
que ele sabia ia bem com a vaidade da rapariga.
Vinha já no avião, de regresso, quando se apercebeu que ia estar em
falta ao prometido, e nas circunstâncias emendou para uma compra duty-free, no
caso um frasquinho de perfume
Na hora de chegada justificou-se como pode, e ofereceu o Chanel nº5,
cuja fragância eu, uns dias depois, estava a ter oportunidade de rever; diga-se,
uma fragância resplandecente sobre o corpo chocolate, impoluto de suores, com
que fazia questão de surgir, garbosa, em cada fim de tarde.
Precisavas de sair da água
Precisavas de sair da água
Pura como uma gota erguida
Por uma onda nocturna
Azevedo
2014-02-24
M64 - Viatura minada
Numa deslocação da C.Art 3540, na ZMLeste aconteceu o que
era provável.
A viatura era conduzida pelo Cabo Mecânico Flor Ferreira e
estava confiada ao Soldado Condutor Gaspar Maia; ao primeiro a explosão da mina
provocou uma perda de audição temporária e o segundo ficou tristíssimo quando soube da
inoperacionalidade da Berliet onde me tinha pedido que desenhasse o seu nome.
Visivel no meio dos destroços, um fragmento do pneu; jante e
cubo da roda voaram cerca de 40 metros
Ao centro o Alf Abrantes, que seria ferido numa emboscada da
Unita, já depois do 25Abril74, por uma bala de raspão.
63 - Mulheres
Andam esquecidas, as mulheres que nos viram
partir, e ainda aquelas de que não quisemos ou conseguimos despedir-nos.
Às mulheres que se despediam no cais de Âlcantara e ficavam a acenar com lenços, até que o navio ultrapassava a linha do horizonte, chegaram a chamar-lhes carpideiras profissionais a soldo, e nós deixamos.
Perdemo-nos no tempo sedados pela adrenalina de pisar terrenos que nos podiam ser desfavoráveis ou de um jogo de cartas a dinheiro, ou ainda compartilhando com camaradas o sabor acre de uma cerveja; e tempo de saudades escritas sobre “bate estradas”, quantas vezes tocados por lágrimas furtivas.
Mas elas, terminados os afazeres da lide diária, algumas os filhos deitados, davam-se então conta de estar sozinhas e viviam o pior dos medos, o que se recria pela imaginação.
No regresso, estranhamos os cabelos brancos…
Às mulheres que se despediam no cais de Âlcantara e ficavam a acenar com lenços, até que o navio ultrapassava a linha do horizonte, chegaram a chamar-lhes carpideiras profissionais a soldo, e nós deixamos.
Perdemo-nos no tempo sedados pela adrenalina de pisar terrenos que nos podiam ser desfavoráveis ou de um jogo de cartas a dinheiro, ou ainda compartilhando com camaradas o sabor acre de uma cerveja; e tempo de saudades escritas sobre “bate estradas”, quantas vezes tocados por lágrimas furtivas.
Mas elas, terminados os afazeres da lide diária, algumas os filhos deitados, davam-se então conta de estar sozinhas e viviam o pior dos medos, o que se recria pela imaginação.
No regresso, estranhamos os cabelos brancos…
2014-01-22
M62 - Reunião em Junho de 2014
Igreja construída segundo projecto arquitectónico do grego Alexandros Tombazis e de estruturas do eng José M Freitas, concluída em Out07, elevada a basílica em Nov11 e dedicada à Santíssima Trindade; íntegra o complexo religioso de Fátima, sendo o mais das vezes designada de a Nova Basílica de Fátima.
A reunião convívio de 2014 terá lugar aqui, em Fátima.
A imagem acima remete pois para o santuário, para onde os homens de fé peregrinam, e os de honra respeitam.
E respeitam porque designadamente também é o local em muitos dos que estiveram em África, exorcizam medos ou ansiedades que lhes perturbaram o espirito ou aí deixaram feridas que persistem até aos dias de hoje; por mais alguns anos, o trajecto das penitências será percorrido pelos mesmos homens de camuflado desbotado pelo tempo...
No que nos toca, de alguma forma privilegiados, será também mais uma oportunidade de celebrar a fraternidade.
E, a menos que se perfile motivo de força maior, está desde já reservado no calendário o dia 7 de Junho.
O ponto de encontro (P.E.), será cerca desta basílica; missa, para os que nela participam, às 11h00; almoço num restaurante a meia dúzia de passos.
P.E.: G.P.S. >> N 39* 37' 46,16" W 8* 40' 31,14
2014-01-17
Subscrever:
Mensagens (Atom)




