O Artolas nasce em doze de julho de mil
novecentos e setenta e um, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.
Tem uma vida muito curta - um pouco mais de três
anos.
É uma personagem “sui generis”: cumpre apenas os
serviços militares mínimos, nunca é voluntário para nada, nem para ir para
casa. Está sempre a medir os outros psicologicamente, a gerir as hipóteses de
sobrevivência, está sempre em alerta, é reservado e arguto, mede todas as
palavras, nunca não emite opinião, não cria atritos, quer apenas passar despercebido
e ser indiferente a tudo e a todos, só está interessado numa coisa, em sair da
situação em que se encontra rapidamente. Nunca teve um louvor ou um castigo,
nunca participou de ninguém.
Não joga à bola, porque não sabe jogar – é trôpego;
não joga à batota, porque não quer jogar – preza muito o valor do seu dinheiro;
não fuma erva nem tabaco – mas compra-o para dar aos amigos, quando estes estão
em baixo de finanças; não se emborracha – mas tem sempre uma garrafita de
brandy Ponte de Amarante para dar um copito ao colega do lado; não dança – porque
não sabe dançar, mas quando há batuque no quimbo lá está ele, sempre pronto, de
olho arregalado a ouvir o som ensurdecedor dos tambores - são sons minimalistas
e repetitivos que levam ao êxtase dos dançarinos e dos espectadores, o ritmo vibrante
da dança das velhas é acentuado pelo barulho das caricas das tampas das garrafas,
são instrumentos musicais primitivos, atados às pernas e suspensos de cordéis
de sisal. Os pés descalços batem no chão num ritmo cadente, são como patadas de
elefantes em corrida acelerada, levantam nuvens de poeira, que se misturam com
suor. Há no ar um odor corporal que o faz agoniar. São horas e horas nisto e …
o artolas ali ao lado sem mexer um músculo, impávido e sereno, só o seu cérebro
vibra com aqueles movimentos loucos.
O Artolas tem uma lavadeira linda, linda de
morrer, era a mais linda das lavadeiras, uma rapariga mais ou menos da sua
idade, os seus colegas cobiçam-na mas para ele, ela não conta: é alta e desempenada,
da cor de ébano, de rosto caucasiano, brilhante e resplandecente, sempre a
cheirar a sabão azul e branco, com roupas garridas, lavadas e engomadas. O
Artolas nunca soube se ela era solteira, casada, junta ou viúva, para ele isso
não contava; ele enquanto existiu fez voto de castidade – não quis deixar para
trás ninhadas de artolinhas. Nunca soube o nome da mulher. Quando ela ia
entregar a roupa lavada aos sábados, no quarto do Artolas e levar a roupa suja
para lavar, os seus olhares cruzavam-se, havia como que uma atração mútua, mas
o voto de castidade do Artolas nunca permitiu ir além deste olhar. Ela também
nunca tentou tocar-lhe. Parece que os dois estavam interessados em manter
apenas aquela situação. A ele interessava-lhe a roupa lavada e a ela os poucos
angolares que levava. O pior da situação era quando os colegas do Artolas o
viam sair do quarto … “tão pouco tempo? Então oh … É assim?” Assim o quê
perguntava ele. “Ai se fosse eu …”
O Artolas tinha uma carapaça tipo tartaruga da ilha dos Galapos
que o protegia de todas as bocas do mundo, estava-se marimbando para tudo e
para todos.
Lê, lê tudo o que apanha: jornais vindos do puto,
revistas de qualquer espécie, livros – novelas, contos, romances, poesia. Por
onde andam os livros – Minha Senhora de Mim, de Maria Teresa Horta ou o Livro
Vermelho do Mao Tsé-Tung?
A música também faz parte do seu passatempo:
Adriano – Canção do soldado; Zeca – Traz outro amigo também; Carlos Santana –
El condor passa; The Who – Quadrophenia; Moody Blues – In de beginning e … o
Woodstock de 1969 por onde passaram todos os grandes músicos do seu tempo. O
gravador vomita em altos berros, sons ora estridentes ora melodiosos, numa
mistura de ruídos, sons vibrantes e limpidez de vozes, onde está a Janis Joplin
com o seu Mercedes Benz? Com aquela voz rouca, sem instrumentos musicais, só
alma, alma … O Artolas confidenciou-me: morreram todos, morreram todos comigo.
O Artolas nunca esteve de cara a cara com o
inimigo, esteve sempre numa zona de guerra mas nunca disparou um tiro contra
alguém … uma guerra santa. Era uma honra que ele tinha enquanto vivia, não ter
feito mal a uma mosca.
O maior azar que teve foi quando a viatura em que
seguia rebentou uma mina anticarro lá para o Leste do Lucusse, a jante da roda
traseira do lado direito foi ter a mais de cem metros de distância completamente
desfeita. O lastro da Berliet feita em chapa metálica tinha para aí de uns
cinco milímetros de espessura, coberto por sacos de areia ficou abaulado na
zona do impacto. O Artolas que seguia junto à cabina do condutor, mas na
carroçaria – a cabina era aberta e só levava o condutor - foi projetado por
cima desta indo cair à frente da viatura. A maior aflição que teve foi quando viu
a sua G3 entupida com areia – sabia que não podia disparar porque esta podia
rebentar-lhe nas mãos; então apanhou uma outra que estava abandonada e que
parecia poder funcionar. Pôs-se à escuta para perceber de onde vinham os tiros
do inimigo para escolher o talude oposto da berma da estrada como barreira
protetora. Mas não havia tiros nem inimigo. Recorda-se de uma espécie de
paragem do tempo que houve entre a explosão da mina e do tempo de queda em
frente à Berliet, aquele espaço de tempo parece ser eterno, a sensação que teve
não é boa nem má, mas é algo de novo e de muito estrado. Uma outra coisa lhe
pareceu estranha foi seus colegas que iam na mesma viatura quando caíram
ficaram assolapados como sapos agarrados ao chão sem reagiram ao que aconteceu,
isto não acontece com o Artolas porque ele já tinha vivido este acontecimento, o
seu cérebro já estava programado para reagir em função desta situação.
Fisicamente ficou com um problema: rebentou os dois tímpanos, o sangue escorria-lhe
pelos ouvidos e ficou para sempre com um zumbido na cabeça que se manteve até
morrer.
Apenas mais uma coisa sobre o Artolas: nunca deixou roubar cabritos aos
nativos, enquanto o seu comandante parecia um assaltante de estradas em
correrias loucas com os seus súbitos atras dos bandos destes animais; é que o
Artolas era um homem com ética.
O Artolas morre a três de setembro de mil novecentos e setenta e quatro no
Regimento de Artilharia Ligeira, n.º 1, (RAL 1), ali para os lados de Moscavide.
PAZ ETERNA Á SUA ALMA.
“Sei que pareço um ladrão …
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu
pareço.”
(quadra de Este livro que vos deixo, de António Aleixo, poeta popular,
1899//1949)
10 de julho de 2012
Ferreira,
ex-furriel miliciano, CCS
desfile em Viana do Castelo; genuinamente o "Artolas" marcha em contraciclo
Na primeira leitura que fiz deste M31, não pude deixar de me lembrar de O Valente Soldado Chveik, de J. Kasek, uma magnifica sátira ao militarismo. Este Artolas, prossegue na mesma linha, e mais importante conviveu connosco, no tempo que lhe foi concedido. Estou agora certo de que teria gostado de aproveitar a oportunidade para promover uma troca de impressões mais proficua com ele. Grande abraço Ferreira, pela ousadia conseguida.
ResponderEliminarEste Artolas não me parece lá muito artolas.
ResponderEliminarHá aqui algo de muito estranho.
Para mim é mais um fingidor como o meu amigo Fernando:
O poeta é um fingidor,
finge tão completamente,
que cgega a fingir que é dor,
a dor que deveras sente.
Fernando Pessoa
Disse,
Endovelicus